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O idoso que cuida do idoso: a realidade invisível dos casais de terceira idade em que um cuida do outro sem suporte externo

Yuri Silva Portela

Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, ressalta que o casal idoso em que um dos cônjuges assume integralmente o cuidado do outro, sem apoio familiar, sem orientação técnica e sem reconhecimento do sistema de saúde, é uma das configurações de cuidado mais prevalentes e mais invisíveis na atenção geriátrica brasileira. Afinal, quando se fala em cuidado ao idoso, a imagem evocada é quase sempre a de um filho adulto ou um profissional de saúde prestando assistência a uma pessoa mais velha, mas a realidade cotidiana é muito mais complexa e muito menos discutida. 

Aqui, você entenderá melhor o que está em jogo quando dois idosos enfrentam juntos o que seria responsabilidade de muitos. Confira a seguir!

O perfil do cuidador que ninguém enxerga

O cuidador cônjuge idoso é, na maioria dos casos, uma mulher acima de 65 anos que cuida de um marido com demência, sequelas de acidente vascular cerebral ou múltiplas comorbidades incapacitantes. Ela acorda cedo, administra medicamentos, auxilia na higiene, prepara refeições adaptadas e gerencia consultas médicas, tudo isso enquanto lida com suas próprias limitações físicas, suas próprias doenças crônicas e, frequentemente, com um luto antecipado pelo parceiro que vai, aos poucos, deixando de ser quem era.

Como esclarece Yuri Silva Portela, esse perfil raramente aparece nas estatísticas sobre cuidadores porque esse cuidado não é formalizado, não é remunerado e não é reconhecido. A cuidadora cônjuge não se identifica como cuidadora: ela se vê como esposa, cumprindo um papel que considera natural e indiscutível. Esse apagamento identitário tem consequências clínicas graves que a medicina precisa aprender a identificar.

O adoecimento silencioso de quem cuida

Cuidadores cônjuges idosos apresentam taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade, distúrbios do sono e declínio cognitivo acelerado em comparação com idosos que não exercem esse papel. O estresse crônico associado ao cuidado contínuo eleva os níveis de cortisol, desregula o sistema imunológico e acelera processos inflamatórios que já estão naturalmente aumentados pelo envelhecimento. O cuidador que adoece raramente busca ajuda, pois sente que não pode se dar ao luxo de estar doente.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na perspectiva do doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a avaliação clínica do idoso dependente precisa incluir, sistematicamente, uma avaliação do estado de saúde do cuidador cônjuge. Na prática, ignorar quem cuida é uma falha clínica com consequências práticas: quando o cuidador colapsa, o idoso dependente perde seu único suporte e frequentemente é internado em caráter de urgência, com piora abrupta de seu quadro clínico.

Isolamento, invisibilidade e a ausência de rede de apoio

O casal idoso, em que um cuida do outro, tende a se isolar progressivamente. As saídas diminuem, os contatos sociais se reduzem e a vida passa a girar exclusivamente em torno das necessidades do cônjuge dependente. Esse isolamento não é apenas social: é também informacional. Sem acesso a orientações técnicas sobre manejo de doenças, adaptações domiciliares e recursos disponíveis, o cuidador improvisa com o que tem, frequentemente cometendo erros evitáveis por pura falta de informação.

Conforme pontua Yuri Silva Portela, iniciativas de saúde comunitária que chegam ao domicílio, como as realizadas pelo projeto Humaniza Sertão, têm um papel insubstituível nesse contexto. Visitar o casal idoso em seu ambiente, orientar o cuidador, identificar riscos domiciliares e conectar essa família a recursos disponíveis são ações que nenhum consultório é capaz de oferecer por si só.

O que o sistema de saúde precisa mudar?

Incluir o cuidador cônjuge idoso como sujeito de cuidado, e não apenas como acompanhante do paciente, é uma mudança estrutural que o sistema de saúde brasileiro ainda não realizou. Grupos de apoio a cuidadores, visitas domiciliares regulares, acesso facilitado a serviços de respiro e orientação técnica continuada são intervenções com custo baixo e impacto alto que poderiam transformar a realidade de milhares de casais invisíveis ao sistema.

No fim, Yuri Silva Portela expõe que cuidar de quem cuida não é generosidade: é medicina. É reconhecer que a saúde do idoso dependente e a saúde de quem o sustenta são indissociáveis, e que qualquer estratégia geriátrica que ignore essa relação está condenada a chegar tarde demais.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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