A construção de universos capazes de sustentar múltiplas sequências figura entre os maiores objetivos de estúdios que buscam relevância de longo prazo na indústria de games, especialmente em um mercado em que o custo de conquistar novos públicos a cada lançamento é cada vez mais alto. Conforme explica Richard Lucas da Silva Miranda, empreendedor do setor de games, esse tipo de planejamento representa uma decisão estratégica tomada muito antes do lançamento do primeiro título de uma franquia.
Nas linhas a seguir, veja como esses universos são planejados desde as primeiras etapas de desenvolvimento de um jogo.
Planejar uma franquia antes do primeiro lançamento
Diferente de um jogo isolado, um universo pensado para múltiplas sequências exige decisões de design que consideram o que ainda não existe. A construção de uma franquia inclui deixar espaços narrativos abertos, criar regras de mundo flexíveis o suficiente para acomodar novas histórias e evitar amarras que limitem expansões futuras. Equipes de narrativa costumam trabalhar em conjunto com o design de jogo desde o início, documentando não apenas a história do primeiro título, mas também a cronologia e a geografia do universo como um todo.
Richard Lucas da Silva Miranda destaca que esse cuidado inicial evita retrabalho significativo mais adiante, quando novas equipes precisam expandir o universo sem contradizer o que já foi estabelecido em jogos anteriores. Guias de estilo e documentos de referência tornam-se, nesse contexto, tão importantes quanto o próprio roteiro do primeiro jogo, já que orientam decisões criativas de equipes que ainda nem existem no momento em que o universo é concebido.
Personagens e mundos como ativos de longo prazo
Personagens bem construídos funcionam como âncoras emocionais capazes de atravessar diferentes jogos, mantendo o interesse do público mesmo quando a jogabilidade ou o gênero mudam entre uma sequência e outra, algo que se observa em franquias que alternam entre gêneros como ação, estratégia e aventura sem perder sua identidade central. O mesmo vale para o mundo em si, cuja consistência geográfica e histórica cria uma sensação de continuidade que reforça o vínculo do jogador com a franquia como um todo, mesmo diante de mudanças significativas de elenco de personagens ou estilo visual ao longo dos anos.
Diante desse cenário, estúdios que investem nesse tipo de construção tratam personagens e cenários como ativos de longo prazo, com valor que se acumula ao longo de anos, e não apenas como elementos funcionais de um único lançamento isolado no tempo. A comparação se aproxima da forma como estúdios de cinema tratam franquias consolidadas, nas quais decisões de casting, figurino e continuidade visual são pensadas para sustentar múltiplos filmes, não apenas o próximo lançamento da temporada.

Os riscos de expandir um universo sem planejamento
Nem toda tentativa de expansão é bem-sucedida. Sequências apressadas, criadas para aproveitar o sucesso comercial de um primeiro título sem o devido cuidado narrativo, costumam gerar inconsistências que frustram a base de fãs mais engajada, aquela mesma que normalmente sustenta a franquia nos períodos entre lançamentos por meio de conteúdo gerado pela comunidade e engajamento orgânico nas redes sociais. Contradições de enredo, mudanças bruscas de tom e personagens que perdem coerência entre um jogo e outro são sinais comuns de expansão malconduzida.
Segundo Richard Lucas da Silva Miranda, esse tipo de erro tende a comprometer não apenas o jogo em questão, mas a percepção de qualidade de toda a franquia, dificultando a recuperação de confiança do público em lançamentos futuros dentro do mesmo universo. Consequentemente, reconquistar uma comunidade de fãs após uma sequência mal recebida costuma exigir anos de trabalho consistente, com correções graduais de rumo e comunicação transparente sobre os erros cometidos, um processo bem mais lento e custoso do que o cuidado exigido na fase de planejamento original.
Como equilibrar expansão criativa e consistência narrativa?
Manter um universo coerente ao longo de múltiplas sequências exige documentação rigorosa e comunicação constante entre as equipes responsáveis por cada novo título, especialmente quando diferentes estúdios trabalham em jogos do mesmo universo. A coordenação entre equipes se torna ainda mais desafiadora quando franquias envolvem parceiros externos, licenciados ou estúdios contratados para desenvolver spin-offs, situação em que a comunicação entre times precisa ser tratada como prioridade estratégica, não como formalidade burocrática. Bíblias narrativas detalhadas, revisadas periodicamente, ajudam a garantir que decisões de design em um jogo não entrem em conflito com o que já foi estabelecido anteriormente.
Para Richard Lucas da Silva Miranda, a disciplina de documentação, embora pouco glamorosa se comparada ao trabalho criativo em si, é o que sustenta universos de games capazes de crescer de forma saudável ao longo de décadas, mantendo tanto a fidelidade do público quanto o espaço necessário para novas ideias. Estúdios que tratam esse trabalho de bastidores com a mesma seriedade dedicada à criação artística tendem a colher resultados mais consistentes a cada nova sequência lançada.

